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Coluna

Cássio Nascimento
Publicada em 09/11/2020 às 18h18

A pandemia e o fim do torcedor-raiz

Assistimos consternados, recentemente, ao passamento de um dos muitos "torcedores-símbolo" do Bahia: o Sr. José Luiz, conhecido como Jotinha, vítima da praga denominada Covid-19, aos 52 anos.

Morador de Elísio Medrado, próximo a Amargosa e Santo Antônio de Jesus, Jotinha era uma figura. Portador de anomalia congênita (seria a Síndrome de Hutchinson-Gilford??) com déficit de crescimento e envelhecimento preoce, tinha uma voz infantil e um jeito alegre e bem humorado, que eram a sua "graça". E sua origem humilde, da zona rural, naturalmente levou as pessoas a terem mais empatia e carinho com a sua pessoa. A fama, aparentemente, não o levou a se comportar como estrela de Hollywood; e, aparentemente, não tinha déficit mental/comportamental que lhe prejudicasse socialmente.

Não fosse pela sua deficiência, talvez Jotinha jamais tivesse alcançado a fama, aparecendo inclusive em programas humorísticos de âmbito nacional. No entanto, a sua voz infantil, disseminada pelos aplicativos de mensagens de texto, cheia de erros de vernáculo (lingua do povão, antierudita), recheada de palavrões, cornetagens ao Bahia e ao Rival de Canabrava, é que faziam a alegria da torcida. É meio que da natureza humana tratarmos assim os vários jotinhas que existem por aí, meio que por compaixão, meio que por um interesse pelo diferente. Possivelmente aquele "homúnculo" pensava, tinha desejos e sentimentos; e tinha lá os seus momentos de seriedade. Mas isso, de fato, não interessava a todos nós que demos risadas com ele - porque assim seria "mais um".

Nesse diapasão, vamos ao conceito do torcedor-símbolo, ou do que o caracteriza. Epistemologicamente, seria aquele torcedor de comportamento exótico, fora do comum, ou exagerado, capaz de cometer loucuras pelo seu clube do coração? Ou um "torcedor-raiz", que vai ao estádio, que pinta a cara, que briga com parente quando seu time perde; ou que sabe até a escalação do time Sub-15? De fato, difícil definir. Pelos exemplos vigentes, parece-me que seu conceito se aproxima mais do torcedor exagerado, de comportamento exótico, irracionalmente fanático. Enfim, Jotinha não era nada disso: sempre foi Bahia e só apareceu em propagandas do clube e áudios de zap porque se tornou famoso antes de tudo isso. E, por acaso, era Bahia! Não há de se confundir o torcedor exótico com o exótico torcedor.

Jotinha falava como o povão de 90% das arquibancadas da Fonte Nova, chutando para longe quaisquer intenções de se elitizar ou problematizar o esporte, reduzindo-o a mero ensaio de intelectuais. Falava, em "rede mundial", que Hernane era "uma merda" e que a Diretoria não prestava, sem fundamentar o porquê (exceto pelo resultado de cada partida), da forma mais natural possivel, como qualquer um dos ratos de Geral que existem por aí, não importando sua classe social ou nível de escolaridade. Era um torcedor. Apenas isto.

Cada um tem seu papel neste jogo: o analista de futebol tem seu lugar, o intelectual tirado a gestor com viés de antropólogo idem; e o torcedor de cerveja na mão e radinho na outra também tem seu lugar. Este, o que se chama de "torcedor-raiz", era o que fazia do Bahia temido dentro de campo. Cada um dos que gritam "Bahêa" são seus símbolos, de um clube de massa, que não aceita qualquer resultado que não seja o sucesso. Os "exóticos", por sua vez, não representam a mediana da torcida, porém são um folclore esportivo-cultural que pode e deve ser preservado, porque representam a Bahia como um todo e não um estereótipo.

Com o advento das Arenas mulituso e seus caríssimos ingressos, o torcedor raiz, aos poucos, vai sendo afastado das arquibancadas. Tanto pelo preço quanto pelos horários esdrúxulos dos jogos. Some-se o fato de o futebol, atualmente, rivalizar com a "TV sem assinatura" (os GatoNets da vida), fazendo com que o torcedor pense duas vezes antes de sair de casa face à violência urbana que só cresce no país.

Morreu Jotinha, e emitimos nossos profundos votos de consolo à sua família. O símbolo do torcedor alegre, bem humorado e espontâneo, é o seu maior legado, apesar de o futebol ter, definitivamente, se rendido ao Capital e caminhar, incontinenti, para voltar ao tempo de sua criação, quando era esporte de elite social.

Morreu Jotinha, e morre mais do que um "símbolo" - palavra da qual não gosto muito por reforçar estereótipos e dar publicidade a certas figuras portadoras de "CID-F" enxertadas como símbolo por ex-dirigentes. Morre, simbolicamente, o torcedor raiz, numa época de quarentena, arquibancadas vazias e estádios insossos. Enquanto isso, o insosso elenco do Bahia, já descrito meio que como abúlico pelo seu treinador, vai ganhando pontos importantes, como ontem. A propósito, alguém já disse que o Bahia é um "eterno gol de Raudnei", o que tenho que concordar. Vá matar o diabo! já dizia um velho radialista baiano de um passado recente...

Saudações Tricolores!

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