é goleada tricolor na internet
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Publicada em 17 de dezembro de 2021 às 10:06 por Autor Genérico

Autor Genérico

As jornadas de janeiro em diante






Joseph Campbell, na obra “O Heroi das mil faces”, de 1949, definiu os “doze passos” para a construção do mito do heroi, agora sem acento. A obra é extensa e complexa, e foge ao tema desta página eletrônica para a qual escrevo e exercito meus dotes de filósofo amador de boteco.

Os tais doze passos seriam os seguintes: o mundo comum; o chamado à aventura; recusa do chamado; encontro com o mentor; a travessia do primeiro limiar; provas, aliados e inimigos; aproximação da caverna secreta; a provação; a recompensa; o caminho de volta; a ressurreição; e o retorno com o elixir. Para quem pretende uma leitura mais aprofundada do tema, basta observar que se trata de um backbone narrativo constantemente aplicado nas histórias de Hollywood e nos super-heróis dos quadrinhos que surgiram, exatamente, em concomitância à obra de Campbell.

No que tange à escolha de um presidente ideal para o Esporte Clube Bahia, observem que a todo instante tentam emular o protocolo Campbell de construção de uma personalidade ou mito. O modelo perfeito do dirigente de personalidade forte, centralizador e apaixonado pelo clube até as últimas consequências (nem que para tal necessite invadir gramados e intimidar árbitros) já fez parte do imaginário tricolor – e é constantemente evocado à medida em que o clube sofre reveses em campo e fora dele. 

Belintani tentou seguir, ab initio, o protocolo Campbell: deixou sua zona de conforto, seus negócios no campo jurídico e governamental, passeando por altos cargos comissionados, para assumir uma verdadeira “bucha”, que é gerir a paixão de milhões de pessoas. Certamente ele hesitou em um momento, consultou sua família, afinal o corolário de ameaças e intimidações é algo muito provável de acontecer no universo do futebol. Mas, no final, acabou “atendendo ao chamado”, mediante o sacrifício de sua privacidade e vida comum. Para que aceitasse o cargo (ou o encargo), certamente foi abordado por baluartes, veteranos, ícones, símbolos e “pessoas eminentes da sociedade”, decerto os “mentores”, para que topasse a grande jornada – e sabe-se lá sob quais condições!

A travessia dos limiares depende do referencial adotado pelo torcedor, sócio ou não. O torcedor mediano quer taças e não gráficos: normal. Contudo, de uma forma geral, podemos resumir que o torcedor do Bahia não sabe bem o que quer, porque oscila entre os sonhos realizados de trinta anos atrás e a convalescença do pesadelo da Cerei C que ainda gerou alguma fobia coletiva e descompensou sua distimia latente. O fato é que, desde a redemocratização, enfatizaram-se demais os defeitos de gestões passadas, mormente seu amadorismo, e ressaltaram-se demais ferramentas de gestão enquanto indicadores de resultado em vez de processo, algo que cheira a um neotaylorismo, mas não é: apenas algo para encobrir a insuficiência de desempenho em campo. O fato é que Belintani, com o rebaixamento, preparou-se para a travessia do limiar, fosse qual fosse, e no meio da travessia teve que recuar ante a tempestade, antes que soçobrasse.

Como parêntese, cabe analisar que a reeleição massiva de Belintani, com maioria esmagadora de votantes, deu-se em um público insider, na ausência de outras forças políticas capazes de convencer o torcedor de que vale a pena sair da zona de conforto do “estamos na série A”, com os contemporizadores de sempre: “futebol é difícil”, “a Lei Pelé prejudica quem não tem dinheiro”, “não temos dinheiro para investir”, “temos uma base” etc. A suposta austeridade financeira e as supostas contas no azul, provavelmente, foram o fator decisivo para a manutenção do status quo, o que deverá ser desvelado face aos questionamentos do Conselho Deliberativo e do Conselho Fiscal.

Para o torcedor mediano, emulando o finado Jotinha, a gestão é “uma merda” porque não venceu o time de Canabrava, ou porque perdeu o Baiano com um time C ou foi precocemente eliminado desta ou daquela copa (e acabou rebaixado). Qualquer um que subverta essa lógica abandona o protocolo de Campbell e passa direto à fase do elixir do sucesso. Em tempos de redes sociais e de mitos, no mau sentido, frases de efeito e posturas assertivas são o tempero do dirigente perfeito. 

O sócio, ou o torcedor mais engajado politicamente, quer ver o clube organizado e bem administrado. Quer, também, ver resultados expressivos. Este colunista tem alertado, há vários anos, para as deficiências de mercado que induzem ao perfil do clube de forma similar a Sport, Ponte Preta, Goiás, Chapecoense e Náutico. Por mais erros que a Gestão de Belintani tenha cometido, o material humano, o “RH” custa caro e sua aquisição é complexa. Ou o clube faz um investimento na base em longo prazo (o que se torna difícil diante das demissões continuadas de treinadores e gestores na área) ou entra de vez no mercado com inteligência.

Belintani segue incólume, tentando vivenciar a fase do “ventre da baleia” (na qual as pequenas provas e os inimigos se lhe são revelados), pois “não será esse contratempo que me fará desistir”, tentando a superação de si e retomando a jornada heroica interrompida. Os inimigos creio que sejam a imprensa, grupos isolados e confusos de oposição e a “voz das ruas”, corneteira que só ela. O torcedor do Bahia é mal-humorado, triste e saudoso. Seu limiar de irritação pode ser extrapolado numa simples cobrança de lateral e Belintani tende a usar isso como uma forma de autocomiseração.

Na verdade, parece-me haver uma confusão do que seja o limiar a ser cruzado. Objetivamente, o Bahia ainda é o maior do Brasil não-Sudeste/Sul, ainda é a maior torcida de um nordestino fora do Nordeste e seu cartel de títulos e orçamento são de um clube a altura. Contudo, o torcedor do Bahia não consegue olhar pra frente, repete no automático que é “bicampeão brasileiro” e não sabe para onde ir. Tende a passar uma temporada de curta a média na Série B e voltará à Série A lutando para não cair e comemorando classificação à Sul-Americana (para ser eliminado na terceira fase).

No próximo texto desta série, falarei um pouco de mercados, dentro das minhas limitações de formação. É necessário compreender que o mito do herói não é uma crítica destrutiva, e sim uma análise de um fenômeno natural do processo. Contudo, precisamos entender o que representa o Bahia no universo do futebol e compreender o que queremos de fato para o clube antes de sair xingando Matheus Bahia.

PS: eu falei que não voltaria tão cedo, mas é como minha mãe dizia: “gente descarada é assim mesmo”. Saudações tricolores!

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