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Coluna

Manuelito Magalhães
Publicada em 04/04/2021 às 17h56

Dado e a Marmota

Em Feitiço do Tempo, filme americano de 1993, o presunçoso e arrogante repórter meteorológico Phil Connors (interpretado por Bill Murray) vai até uma pequena cidade na Pensilvânia (EUA), para cobrir o Dia da Marmota, evento local em que os moradores acreditam que uma marmota, curiosamente também chamada de Phil, é capaz de prever a duração do inverno. A explicação é simples: se a marmota sair da toca e se assustar com a própria sombra, voltando correndo para seu esconderijo, o inverno vai durar seis semanas mais. Caso contrário, acaba logo.

O enredo do filme, contudo, gira em torno do fato de que o egocêntrico “homem do tempo” acaba preso numa espécie de loop temporal, com o mesmo dia e os mesmos acontecimentos se repetindo infinitamente. Tenho certeza de que esse enredo também vem sendo vivido pelos torcedores tricolores. O time, num jogo, domina a partida, encurrala o adversário, vence e deixa o torcedor, não só feliz, mas esperançoso de que #agoravai. No outro jogo, a equipe tira o pé, joga de forma modorrenta, desanimada, sem variações táticas e perde ou empata. Mas, o técnico e os jogadores sempre conseguem enxergar uma boa partida e veem o time em evolução. Dá vontade de perguntar se assistiram ou participaram da mesma partida que nós.

Querem outros exemplos de que estamos presos no tempo? As falhas sucessivas de Douglas, à frente do gol do Bahia; as falhas da defesa tricolor; a insistência nas jogadas pela direita; a inexistência do lado esquerdo para jogadas ofensivas; a presença de um técnico teimoso no banco e que enxerga uma hierarquia na hora da substituição (alguém aí lembrou-se de Roger?). Enfim, exemplos não faltam de que repetimos erros e não aprendemos com eles.

É verdade que estamos vivendo uma fase de transição, jogadores deixando o clube e outros chegando, ainda sem plenas condições de jogo. Mas, não posso concordar com nosso treinador quando ele diz que o tricolor teve uma boa atuação diante do Fortaleza e que perdemos “nos detalhes”. O Fortaleza anulou a jogada ofensiva mais eficaz do Bahia, pela direita, com Nino e Rossi. O nosso meio-campo é lento e frágil já de há muito, não apenas neste último jogo, vivendo de repentes iluminados de Rodriguinho. O lado esquerdo tricolor é incapaz de levar perigo à meta adversária, anulando muitos contra-ataques. Isso não são detalhes, são padrões de jogo que o Bahia vem apresentando e repetindo sucessivamente. Diga-se, a favor de Dado Cavalcanti, que essas características não surgiram no comando dele, mas cabe a ele a responsabilidade por mudar agora, como foram no passado de Guto Ferreira, Jorginho, Preto Casagrande, Carpegianni, Guto novamente, Enderson Moreira, Roger Machado e Mano Menezes (vejam há quanto tempo estamos presos no “feitiço do tempo...”).

Também me coloco em posição contrária àquela de Dado Cavalcanti quando ele diz que não tem “motivo” para tirar Douglas do time titular. Não sou daqueles que execram nosso arqueiro. Pelo contrário, reconheço nele boas qualidades que já nos salvaram em diversos momentos. Exatamente por isso a comissão técnica tem a obrigação de preservar o profissional que, visivelmente, não está no melhor de seu equilíbrio psicológico e tira a tranquilidade do setor defensivo com sua insegurança. Argumentar, como fez nosso treinador, que a derrota não se deu por falha de Douglas é esgrimir obviedades. Fosse assim, seria o caso de punir Conti por ter salvo o gol que tirou de Douglas a fama de vilão? Francamente, esperava mais inteligência de nosso comandante. Claro, ele não pode (e não deve) criticar Douglas, principalmente em público. Mas, pode (e deve) tomar a decisão de afastá-lo, ainda que temporariamente. Vai esperar o quê? O “dia se repetir” e sermos eliminados da Copa do Brasil por uma falha dele, como no ano passado?

Dado Cavalcanti entrou numa semana decisiva, a meu ver, para suas pretensões de continuar treinando o tricolor na temporada 2021, com as partidas da Copa do Brasil (quarta-feira) e da Copa do Nordeste (sábado). E precisa ter em conta que somos responsáveis por nossas ações, assim como por nossas omissões. Somos cobrados tanto pelo que fazemos quanto pelo que deixamos de fazer. Ao contrário da marmota, ao nosso técnico não é permitido ter medo da sombra e voltar correndo para a toca. Se o problema da conduta oscilante do Bahia é de elenco, que coloque em campo as novas contratações, substitua quem não vem apresentando bom futebol. Afinal de contas, assim como no filme, o que vai colocar um fim ao “feitiço do tempo” é a mudança de comportamento do personagem. Phil lá, Dado cá. BBMP!!

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