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Coluna

Cássio Nascimento
Publicada em 24/12/2020 às 13h29

Ensaio sobre o País de Gerson

Primeiramente, não custa nada reiterar: o racismo existe, e é real. Não existe, necessariamente, através de pessoas andando com capuzes cônicos nas cabeças e queimando cruzes; tampouco através de emos tardios usando bigodes estranhos e empunhando suásticas (muito embora seus simpatizantes se resumam a um punhado de psicopatas soltos nas ruas). O racismo à brasileira se manifesta no dia a dia, em condutas sutis, atávicas e reiteradas. Políticas afirmativas ou identitárias existem para quebrar padrões ou paradigmas, porém muitas vezes são confundidas com panfletagem, proselitismo político e estilos de vida.

Ser branco ou negro não está atrelado a posicionamentos de dentro do espectro político, mas ser negro acaba por ser uma “minoria” social (e não numérica), situação que foi recepcionada pela dita ala política progressista, ou de “esquerda”; em detrimento do que se chama de “direita”, ou ala conservadora. Um tende a dizer “somos vítimas de um sistema opressor” e outro tende a dizer “isso não existe, somos todos iguais: vá trabalhar!” Seja qual for o posicionamento ou opinião do leitor a respeito do tema em tela, recomendar que as pessoas negras cortem o cabelo para adaptarem-se “ao mercado de trabalho”, além de uma opinião de um extremo conservadorismo é de uma crueldade e torpeza sem tamanho...

O movimento negro, como qualquer “ismo”, aposta na retórica forte a fim de puxar o equilíbrio do debate para um dos lados. Dentro de tal retórica, às vezes, posições extremadas tendem a segregar o outro de forma reativa, o que os conservadores qualificam “racismo reverso”. De qualquer maneira, devemos nos abster de expressar o pensamento da casa-grande do Século XIX, do mesmo modo que devemos nos abster de achar que todo descendente de alemão é nazista ou todo descendente de japonês é abobalhado com QI acima de 140.

Países latino-americanos de colonização espanhola, como Colômbia e Argentina, não somente colocaram o negro na cozinha ou favela como nós; ou nas lavouras da plantation: mandaram o negro explorar minérios e carregar peso, promovendo extermínio em massa dos afrodescendentes (a ponto de praticamente não existirem na terra de Maradona). Em tais nações, o termo “mono” (macaco) é usado de forma escancarada para diminuir os negros – o que já rendeu prisão em flagrante de atleta portenho em partida contra o São Paulo FC. A questão racial, em tais países, talvez seja até menos dissimulada do que a nossa, porém muito mais odiosa. Enfim...

Ok, finalizei meu briefing a respeito da questão que vamos delimitar doravante:

Ramírez pode ser racista ou não, mas pode ter falado algo relativamente aceito na sua terra natal (algo semelhante ao nosso “negão”)

No ordenamento jurídico brasileiro, racismo é diferente de injúria racial: e a esta dá-se penalidade mais branda, além de depender de representação (ou seja, do suposto ofendido se ver como tal)

Não podemos entrar no âmago de Gerson para julgar seu sentimento real. Do mesmo modo, Mano Menezes poderia se abster de chamá-lo de vitimista no calor do momento, face à extrema sensibilidade do tema – e inclusive creio que isso fora a “azeitona” da sua demissão, já cogitada anteriormente.

Gerson e Bruno Henrique são jogadores de comportamento polêmico. Inclusive, nada mais polêmico do que o Flamengo e todo o futebol carioca, notório pelos conturbados bastidores e acontecimentos duvidosos em campo, inclusive envolvendo arbitragem.

Ainda falando do Flamengo, este perdia o jogo dentro de casa, pressionado por alcançar o líder São Paulo. Nervoso, teve Gabriel expulso no começo da partida; e mesmo com um a menos, não teve muita dificuldade em virar o jogo contra o insosso e inepto Bahia do sazonal (só funciona diante do Flamengo) Gilberto. Em momentos de extrema pressão e desequilíbrio, um determinado fato ou factoide cairia bem como uma luva.... imprensa global explorou bem o fato, dando a entender que aquilo tudo serviu para agregar um elenco desunido, instável, milionário e cheio de estrelismos.

Gerson fez menção de levantar debate sobre a questão racial no Brasil, mas logo arrefeceu – talvez por não desejar hiperexposição extracampo... afinal, deixem-no quieto ali, no lugar que é dele por direito, onde negros podem estar sem serem questionados.

Pululam, diante de tudo isto, especialistas que até agora não convenceram a opinião pública do óbvio. Tampouco o ora questionado árbitro paulista percebeu alguma coisa, em plena Era do VAR e das câmeras de super-zoom...

Finalmente, o nosso recém reeleito presidente Belintani, considerando todo o cenário acima descrito, poderia ser mais assertivo em preservar não apenas o seu atleta, um jovem e inexperiente estrangeiro, do linchamento virtual que sempre costuma acontecer nesses casos. Que telefonasse ao Gerson, mas que dissesse algo como “vamos apurar o que aconteceu; e se aconteceu, tomaremos as devidas providências”. Que afaste o Ramírez preventivamente durante alguns dias, porém para preservar o patrimônio do clube, bem como a própria instituição; e blindá-lo até a poeira baixar... mas tirar o jogador do grupo em definitivo (caso isso seja feito), sem nada que comprovadamente o desabone (ou seja: mediante provas), poderá gerar reação em cadeia em um elenco que já parece caminhar, inexoravelmente, à segunda divisão.

Em sendo provada a injúria racial, que a Lei trabalhista seja evocada e que a justiça seja feita: nenhum milímetro a mais ou a menos. A depender de como a coisa se deu de fato, rescisão contratual é uma prerrogativa do clube, seu empregador. Assim como fui contra o linchamento virtual da moça gaúcha que chamou o goleiro Aranha de macaco; sustento o mesmo ao bom jogador colombiano: que aprenda, se for o caso, a respeitar os outros; pague o que supostamente fez, e bola pra frente!

Contudo, diante do comportamento do elenco flamenguista e da imprensa global, tripudiar em cima do frágil e abúlico Bahia, a fim de impulsionar o Urubu rumo a mais um título brasileiro parece bem conveniente – algo que não está nem um décimo de milímetro à altura da grandeza e tradição deste clube carioca, podendo denotar uma atitude bairrista e leviana. Quando você tem um presidente que não sabe se impor diante deste jogo, entende o porquê do péssimo segundo turno do Brasileiro 2019 e do pífio desempenho nas competições de 2020: incluindo o Campeonato Baiano do qual saiu vencedor.

Sem mais, desejo a todos os tricolores boas festas e um feliz 2020, na primeira divisão de preferência. Custa nada recomendar a todos comedimento nas comemorações, evitando-se grandes agrupamentos. A emergência sanitária está longe de terminar; e milhares de brasileiros sofrem e morrem, de forma desapercebida pela maioria das pessoas.

Saudações Tricolores!

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