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Coluna

Publicada em 30/11/2023 às 09h25

Eu vejo o futuro repetir o passado

Salvador, 02 de setembro de 2020.

O Bahia sofria nesta data uma duríssima derrota para o Flamengo pelo placar de 5 a 3 em pleno estádio de Pituaçu esvaziado devido à pandemia causada pelo coronavírus. A consequência desse placar foi à interrupção do trabalho mais longevo de um treinador do Bahia na década (1 ano e cinco meses). Roger Machado deixava o Bahia naquele momento como um técnico que nos deu esperança de dias melhores, mas que sucumbiu à pressão por resultados, à ansiedade, ao momento em que vivíamos e a montagem de elenco do Bahia naquela temporada.

Precisamos imergir mais um pouco neste passado recente, relembremos este combalido elenco. No começo desta temporada, ainda sem pandemia, Guilherme Bellintani e a cúpula futebolística capitaneada por Diego Cerri anunciava as contratações dos garçons de Vasco, Corinthians e Fluminense: Rossi, Clayson e Daniel. Com o plus da chegada do famigerado camisa 10, Rodriguinho. Além da manutenção de nomes importantes como Gregore, Gilberto, Fernandão, Nino e cia ltda. Parecia uma boa montagem de elenco, mas a pergunta era: este plantel estava sendo montado para jogar como? Qual o modelo de jogo que seria implementado?          

Por se tratar de Roger, um treinador naquela altura conhecido por montar times propositivos, se imaginava que o Bahia seria um time que ficaria com a bola, que teria dinâmicas e comportamentos de atração e detecção de vantagens no campo, que priorizaria um jogo apoiado. Entretanto, se olharmos a característica daquele elenco perceberemos que era difícil estabelecer este modelo de jogo, pois, possuíamos muitos jogadores com características para um jogo mais vertical e reativo. Ou seja, a montagem desse elenco foi deveras esquizofrênica.

Com o trabalho natimorto, Guilherme Bellintani resolveu estabelecer uma troca no comando técnico e procurou por um treinador do extremo oposto ao anterior. Em uma clara demonstração de incerteza, Guilherme acreditou que se mudasse tudo no meio do campeonato, o Bahia se tornaria um time reativo, simplificaria a forma de jogar e aproveitaria as valências dos jogadores que foram contratados erroneamente para jogar de outra forma. Para isso ele buscou o suposto treinador especialista em sistemas defensivos e contra-ataques. Em 09 de setembro daquele ano, Mano Menezes era anunciado pelo Bahia. Os resultados obtidos com o técnico nem precisamos citar.

Escapamos melados neste ano, pois, existia um Dado Cavalcanti. Mas, tudo que permeia este nome fica para outra crônica. Voltemos a 2023. Perceberam as semelhanças? Um trabalho que já nasceu morto de um treinador que acredita em jogo propositivo, posicional, mas que não contou com os jogadores corretos para aplicação efetiva do modelo de jogo, muito por culpa do mesmo que não conhecia os jogadores e os aprovou. Interrupção do trabalho na metade devido à ausência de bons resultados, pressão da torcida, pressão da imprensa, etc., um treinador renomado chegando com o discurso de simplificar, uma melhora nos resultados imediatamente devido ao fato novo e em seguida, após estabilizar, um time sem cara, cor e nem cheiro.

O Bahia de 2023 é tão inconstante que não transmite nem mesmo certeza do fracasso. O Bahia de 2023 é cansativo, angustiante. Não é difícil encontrar relatos de torcedores nas redes sociais declarando que irão se afastar do Bahia por um tempo para preservar sua saúde mental. E acredito que os jogadores, funcionários e o treinador Rogério Ceni estejam vivendo a mesma ansiedade. Talvez maior, por dependerem disso pra viver.

A intenção desta crônica não é criticar o trabalho do treinador atual, sem os resultados obtidos por ele, talvez já estivéssemos rebaixados. Ele trouxe uma sobrevida e se nos salvarmos (e tenho fé que permaneceremos na Serie A), ele poderá bater no peito e dizer que é um gerenciador de crises. Mas, precisamos falar destas receitas de bolo, fórmulas mágicas, simpatias e etc. que existem no futebol. ‘’Faça isso e vai dar certo’’. Se tem um lugar no mundo onde não existe fórmula do sucesso é o futebol. Às vezes se faz tudo certo e dá tudo errado. Isso porque no futebol se controla o treino, mas não se controla o jogo, pois, do outro lado, tem outro time tentando te atrapalhar.

Precisamos nos reeducar e lidar melhor com os trabalhos no futebol. Entender que somos limitados e que existem processos de construção de modelo de jogo e esses processos possuem indicadores que precisam ser respeitados. O que quero dizer é que o projeto pode ser tocado por pessoas diferentes, mas ele precisa continuar. Todo ano eu sinto inveja do Athletico-PR e fico me perguntando como entra ano e sai ano com eles vendendo todos os jogadores, convivendo com a saída de treinadores, mas permanecem estabelecidos como um franco atirador a todos os títulos e colocando taças em sua galeria. A resposta é que eles têm um projeto que se retroalimenta e não depende de indivíduos.

Já aqui no Bahia, ao menor vento, oscilamos. Se não está dando resultados, solicitamos automaticamente a troca pelo extremo oposto. Acreditamos que não somos bons o suficiente para termos um grande desempenho e pedimos o mais simples. O problema é que o tal do simples também é complicado, também demanda tempo e trabalho. Aí acontece isso: não temos identidade alguma. E o pior não é nada, o nosso treinador sabe fazer um jogo com a bola, esta era sua característica em outros clubes. Podia estar sendo menos traumático para o projeto. Mas, qual o discurso? Que precisamos simplificar para nos mantermos na Serie A. Receita do bolo.     

Sabe qual a consequência disso? O ano zero já virou ano -1. Não temos legado algum para 2024. O processo foi interrompido e ‘’agora é orar, Scarpinha’’, para que este ano não se torne o ano -2. E como é tradição da nossa cultura eleger salvadores da pátria e apontar um culpado, como diria Marília Mendonça: - E agora de quem é a culpa? Como no powerpoint de Dallagnol, as setas apontam para os mesmos culpados. E para estes eu não vou aliviar.

Você, torcedor, sócio, que aprovou e até mesmo votou na venda da SAF do Bahia para o City Football Group, por qual motivo você deu este voto? O meu critério foi bem claro: retorno esportivo. Eu amo votar, se eu pudesse votaria em tudo nessa vida. Fiquei maravilhado com a passeata devolva meu Bahia em 2006, acompanhei a luta de 2007 a 2013, estive nas trincheiras e, no dia da reforma do estatuto na intervenção, realizei meu sonho de ser sócio. De lá pra cá, já me desempreguei, já trabalhei em vários lugares, mas sempre dei um jeito de me manter em dia. E o motivo era simples: decidir o futuro do meu clube. Era imprescindível. Até ser seduzido pela proposta do CFG e abrir mão disso tudo em busca da felicidade. E não se engane, não esperava que este ano o Bahia brigasse por algo. Diferente do que pensa o nosso ex-treinador, eu não pedi título algum. Eu sei que o processo é árduo.

Sei também que o CFG não herdou estrutura esportiva alguma. O Bahia vinha sendo pessimamente gerenciado no que se refere às instâncias do futebol: divisão de base com inúmeras mudanças de comando nos últimos anos, departamento de futebol entregue a profissionais de quinta categoria em 2021 e 2022, um time que subiu para a Série A e não manteve espinha dorsal alguma no elenco e um início de projeto tocado por estrangeiros que ainda não conhecem a profundidade do futebol brasileiro.

Dito isso, abri mão do meu direito de voto porque queria decisões assertivas, fundamentadas em técnicas de gestão, com uso de indicadores claros e objetivos, se possível com uso de métodos científicos para diminuir os erros em tomadas de decisão, mesmo que num primeiro momento pareça impopular. O que eu recebi neste ‘’ano zero’’ foi o mesmo erro cometido por Guilherme Bellintani em 2020. É muito pouco e muito pobre, pois, Guilherme tem a desculpa de agir no calor da emoção de ser um torcedor do clube. Já o CFG não possui sequer esta justificativa para agir assim. E o que nos resta é torcer para ter um mais incompetente nessas rodadas finais e para que o Bahia vença pelo menos uma decisão neste ano. E sigamos apoiando os heróis tricolores.

Bora Bahêa minha porra !   

 

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