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Coluna

Andre Uzeda
Publicada em 04/05/2020 às 11h13

Fernando Schmidt: o homem de suspensório que atravessou o tempo

Educação destacada, inteligência viva e coragem desmedida. Fernando Roth Schmidt (1944-2020) atravessou décadas imprimindo sua marca em dois campos afamados por nem sempre produzirem atores de tamanho gabarito.

O poder e o dinheiro estruturam o futebol e a política. Inúmeros são os casos de má conduta nestas duas vertentes. Quando um cartola entra na administração pública, ou um parlamentar vence uma eleição de clube, alguma sirene dispara. A atuação de Schmidt, no entanto, dispensou alertas sonoros. De personalidade discreta, porém firme, soube separar bem os cargos. Foi presidente do Bahia em duas ocasiões: entre 1975 a 1979 e de 2013 a 2014. Neste ínterim, trilhou uma carreira como vereador, secretário da prefeitura de Salvador, assessor e ministro interino do trabalho, além de professor universitário.

No começo da madrugada desta segunda-feira (4/5), Schmidt partiu aos 76 anos. Na sua primeira passagem no comando do Bahia deixou dois legados sobreviventes ao tempo. É o presidente da inauguração do Centro de Treinamento do Fazendão e da marca – até hoje imbatível – do heptacampeonato estadual.

É na sua segunda passagem na presidência, no entanto, que Schmidt se destaca por suas qualidades notáveis, personalidade singular e resistência acima do comum, ainda mais para um homem de idade tão avançada.  Ainda durante a intervenção do Bahia, que expurgou a família Guimarães do poder, grupos políticos já se organizavam para disputar a eleição direta de sócios que se daria ao fim do processo judicial, em setembro de 2013.

Um dos grupos, liderado pelo publicitário Sidônio Palmeira, enxergava no ex-presidente um nome de consenso para assumir um mandato tampão por um ano, até novas eleições diretas. Inicialmente, Schmidt não queria disputar o pleito. Tinha 69 anos e atuava como secretário no governo de Jacques Wagner (PT). Foram rodadas e mais rodadas para convencê-lo. Eu era repórter do jornal A Tarde e cobria assiduamente os bastidores da intervenção do clube. Quando o nome dele foi anunciado por uma das chapas, liguei para saber a razão do aceite, após as primeiras recusas públicas. As palavras foram mais ou menos essas. “Quando provam pra gente que a missão é nossa, fugir já não é mais prudência. É covardia”.

Schmidt enfrentou uma campanha acalorada, com debates na televisão, rádios, sabatinas em sites e jornais. Sofreu ataques pela sua forma de vestir (uso de suspensórios) e por extrapolar o tempo quando convocado para responder as perguntas dos demais candidatos – queria explicar tudo de uma forma minuciosa e foi chamado de “prolixo” e até de “gago”.

“Eu não gaguejo. Eu fico querendo concluir o raciocínio, mas fica todo mundo me dando pressa e aí tenho que correr no piso molhado e escorrego”, se defendia, com bom humor.

Era um homem de um outro tempo, de uma outra forma de comunicação, em um esforço seivoso para não ser deixado para trás. Aprendeu tudo muito rápido. Ao fim da campanha, já sabia os truques da linguagem rápida. Os suspensórios, estes, permaneceram. “Tem coisas que a gente tem que aprender, mas outras a gente não abre mão”, brincava falando do acessório, mas abrindo interpretação para seus valores morais inabaláveis.

Venceu a eleição com 67% dos votos. Assumiu no dia seguinte com um modelo de gestão que trouxe inovações na comunicação e no marketing do clube (mantidos nas duas presidências que o sucederam). Em 2014, muitos dos apoiadores da chapa de Schmidt, que o convenceram a encarar a disputa, se desligaram do cube para tocar outros projetos paralelos. Não houve queixas, ao menos públicas, do presidente. Reuniu sua equipe (ou o que restou dela) e disse: “agora somos nós”.

 O Bahia não foi. O Bahia caiu em dezembro de 2014, na última rodada do campeonato. Naquele mesmo mês houve uma nova eleição de sócios. Responsável por consolidar a democracia, Schmidt apoiou o candidato Marcelo Sant’Ana, que mantinha um slogan no qual claramente o alfinetava pelo descenso: “É a vez do futebol”.

Schmidt passou por cima das vaidades. No discurso de posse, ao transmitir o cargo, resumiu com dignidade seu amor e zelo pelo clube. “Na sua ‘Oração aos Moços’, Ruy Barbosa fala do ‘coincidir desta existência declinante com essas carreiras nascentes’. Faço esse rito de passagem com imensa alegria, como quem entrega ao filho o mais precioso tesouro de sua existência. Entrego-lhe não só o clube, mas todo o desvelo, todo o cuidado, toda a paixão de uma vida inteira. De minha vida inteira”.   

Fernando Schmidt morreu aos 76 anos por complicações neurológicas. Nunca perdeu um único Campeonato Baiano enquanto presidente do Bahia. Consolidou a democracia após a intervenção. Não fugiu à luta. Um grande homem que atravessou o tempo. 

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