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Coluna

Publicada em 03/04/2024 às 13h05

Freio de arrumação

Salvador, 03 de abril de 2024.

 

                Demorei alguns dias para digerir os fatos ocorridos no dia 31 de março de 2024, quando o Bahia deixou escapar uma vantagem de dois gols e levou uma virada histórica frente ao seu rival ovíparo, nos infinitos acréscimos, em pleno poleiro. Esperei para não escrever no calor da emoção, afinal, emocionado não decide nem sabor de pizza. E hoje venho aqui propor um freio de arrumação.

                Às vezes na vida de alguém acontecem coisas que são tão bizarras que a vida segue normal até que alguém se dê conta. Como, por exemplo, meu amigo Irandhir que trabalha num escritório de uma empresa de tecnologia, que tem como chefe um armamentista inveterado, que vibrou quando vislumbrou a possibilidade de conseguir um certificado de ‘colecionador, atirado e caçador (CAC)’ e, novamente, poder ter seu registro de armas de fogos. E como todo bom armamentista, esse patrão anda sempre ‘em cima’, sempre ‘peçado’.  Até que num belo dia, no período vespertino, tudo em silêncio, todos os colaboradores concentrados trabalhando, botando ‘a porra pra andar’, esse patrão disparou um projétil com seu revólver dentro da sua sala. Parte da turma ficou incrédula, outra parte foi ver o que aconteceu. O patrão estava limpando seu brinquedo e, por se tratar de um modelo não travado, disparou acidentalmente. A sorte é que estava apontada para uma posição que não havia nenhuma mesa, segundo Irandhir. Mas, pelo estrago produzido pela bala, se estivesse em um ângulo diferente, a bala poderia ultrapassar o painel que divide as salas e atingir algum colaborador, sentenciando-o ao ferimento ou ao óbito. É o tipo de coisa que talvez as pessoas só caiam na real do absurdo depois de um bom tempo.

                Como diria o poeta contemporâneo Ice Blue (1997, Capítulo 4, versículo 3): ‘’Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição’’.  A cabeça de uma pessoa é 24 por 7 produzindo conteúdos: as vezes bons e as vezes ruins. O problema é quando deixamos escapar e temos que lidar com as consequências. No dia supracitado, após a patética derrota, nosso personagem do dia trouxe uma série de apontamentos na entrevista coletiva que imediatamente me motivou a tomar uma atitude: recolher minha foice no quartinho da bagunça, tirar a poeira, que esse ano vai ter briga de novo. Será que os tiros disparados pelo treinador atingiram o vestiário? Atingiram a sala do diretor de futebol? Que sabe o departamento de preparação física? Preocupou-me demais a leitura que o técnico do Bahia trouxe e, por conta disso, a coluna de hoje tem como intuito trazer uma série de alertas referente ao nosso clube e ao nosso personagem do dia, o técnico Rogério Ceni. Dividirei meu desespero em cinco tópicos.

1 – Modelo de jogo: um alerta conceitual

‘’As trocas no meio campo são escassas e o modelo de jogo vai mudando, a gente não teve capacidade de manter a bola e, automaticamente, o controle do jogo. ’’ (Rogério Ceni)

                Longe de mim querer medir conhecimento com um cara como Rogério, mas, eu gostaria de deixar como sugestão que o técnico revisite alguns conceitos do futebol. O termo modelo de jogo, em resumo, refere-se à identidade de um time, ao que é inegociável, ao projeto esportivo do time. E uma das vantagens de fazer parte do City Football Group é possuir um projeto esportivo muito bem definido. Portanto, gostaria de alertar ao nosso treinador que um modelo de jogo não pode depender de Fulano, Cicrano ou Beltrano para ser praticado dentro do campo. Não pode existir num time como o Bahia a máxima de: com Caio Alexandre, Everton Ribeiro, Jean Lucas e Cauly em campo, nós jogamos de uma forma e sem eles, nós jogamos de outra forma. O modelo de jogo é o que define os jogadores do plantel e não o inverso. O modelo é claro, objetivo e sistemático. O papel do treinador é melhorar todo o seu elenco ao ponto de todos possuírem o comportamento necessário para jogar dentro do modelo de jogo. Se o técnico vai a público e diz que só consegue fazer o futebol que se pede com uma parte do elenco, nas entrelinhas ele entrega a sua inabilidade de fazer o restante do elenco jogar. Embora não seja a sua intenção, afinal estamos falando de um cara que tem dificuldades sérias de assumir suas limitações e erros, Rogério entregou pra mim, pra imprensa, pra diretoria e pra quem mais prestou atenção que ele não tem capacidade de melhorar seus atletas a ponto de independente de quem estiver em campo, o modelo de jogo será executado.

2 – Preparo físico: um problema de planejamento

‘’Até o minuto 60 ou 70 de domingo que vem, você pode ter certeza que nós vamos estar dentro do jogo muito bem e que nós vamos sofrer novamente nos últimos 20 minutos’.’ (Rogério Ceni)

                Ele tem total direito de reclamar do calendário, do cansaço do time, afinal, o Bahia já fez em três meses a quantidade de jogos que demora de seis a oito meses para serem jogados em outros centros de destaque do futebol mundial. É um calendário impraticável que mesmo com o rodízio de escalações, leva o time à exaustão, afinal, cada dia de jogo, sobretudo fora de casa, impede de dois a três dias de treino. Leva os nossos jogadores ao cansaço mental, a ficar longe da família por mais tempo, expõe o elenco as intempéries da convivência humana, etc. Mas, isso já tá mais do que conhecido pelo nosso departamento de futebol e ninguém melhor que Ceni, um cara com mais de 20 anos de estrada, para sugerir uma melhoria no planejamento. Sabia-se que isso ia acontecer, por que não revitalizou o famigerado sub-23 (ou time de transição) para dar folga ao calendário nesse começo de ano? Vamos mesmo iniciar o brasileirão daqui a 10 dias com nosso treinador reclamando que o time está ‘boiado’?

                O sub-23 é um projeto interessante e que já gerou ganhos para nosso time titular, como, por exemplo, o aproveitamento de Flavio e Ignácio. Fora as vendas de Caique, Saldanha, Gustavo, etc. Também tivemos atletas que não tiveram tanto espaço depois do campeonato baiano, mas, que hoje estão em clubes grandes como Mayk, Raniele e Chrystian Barletta. Dentre os acertos da gestão Bellintani, o sub-23 foi um dos mais interessantes. Deveriam pensar para o próximo ano. Para esse, Inês já nos deixou.

3 – Profundidade do elenco: a pressão na diretoria

‘’O time não suporta jogar os 90 minutos, os quatro meio campistas são o coração do time, você não tem a troca pros quatro. ’’ (Rogério Ceni)

                Essa aqui chega a ser engraçada quando comparamos com o técnico do rival. Tem um jogador no rival que parece a gazela Amauri, atacante estranhíssimo que passou pelo Bahia nos tempos sombrios da Serie C: cheio de perna, todo feio, com a camisa por dentro, uma correria desenfreada e pouca técnica. E já é o segundo jogo que ele entra contra o Bahia e ajuda o time dele. Isso pra não falar no famigerado pastor. Será que o elenco do rival, que deve ter gasto um total de 2 acarajés sem camarão, 3 gulas e 1 latão de Schin para a montagem é melhor que o badalado e repercutido elenco do Bahia? A tal da cavalaria tricolor? Ou será que o nosso treinador só quer mesmo citar um colega famoso: - ‘’necessito de 7 refuerzos más’’?

                Eu tenho a impressão que nosso personagem está reclamando de barriga cheia. O que temos a disposição pode não ser o suficiente para ser campeão mundial, mas, deveria ser suficiente para manter-se ofensivo numa partida com a vantagem de dois gols. Eu temo é que nessa tentativa de atingir o diretor de futebol, nosso técnico tenha ‘broxado’ parte do seu elenco, desvalorizando-os em público depois de uma derrota enigmática.

4 – Bahia com bola: um estágio que estagnou

‘’Infelizmente nós perdemos o controle de jogo, a posse de bola, nós erramos muitos passes, não conseguimos controlar o jogo.’’ (Rogério Ceni)

                Parece muito claro pra mim que o Bahia só fica com a bola em setores que o adversário permite. Quando pressionado, o Bahia possui muitas dificuldades na tomada de decisões. E de novo isso esbarra no trabalho do nosso treinador. Por que o Bahia tem tanta dificuldade na segunda fase de construção ofensiva? Por que os nossos meias de maior definição precisam voltar tanto para buscar a bola?

                Tem jogador bom nosso sendo exposto e criticado por causa dessa forma de jogar que não os privilegia. Se você tem craque no elenco, seu papel como técnico é que a bola chegue pro craque no lugar onde ele desequilibra. E tem gente pra fazer essa bola chegar. Falta confiança, falta treino.

5 – Bahia sem bola: um alerta

‘’Nós imaginamos que nós poderíamos estar na frente no jogo e que a gente defenderia melhor a largura do campo e nós treinamos isso durante a semana e colocamos um terceiro zagueiro e dá amplitude com o Juba por um lado e o Arias pelo outro e defender o centro da zaga que é onde poderia sair os melhores lances do Vitória que era através dos pontas, cruzamentos. Infelizmente, não tava com o miolo bem preenchido de área com três jogadores de centro e tomamos o gol pelos lados com bola atravessada na área.’’ (Rogério Ceni)

                E o mais urgente dos alertas. Nosso técnico tirou um atacante e pôs um zagueiro, o que, por si só, já caracteriza como uma mudança que torna o time mais defensivo, embora o técnico alegue que seja exatamente o contrário, uma substituição que  deveria melhorar a organização e a transição defensiva da equipe adicionando mais estatura e um jogador com mais técnicas defensivas. Resultado: piorou. Instalou um caos na defesa do Bahia. Desarmou tudo. Sabe por que isso acontece?  O Bahia já se defende mal naturalmente.

                O Bahia é um time que toma gol em praticamente todos os jogos, das mais variadas formas. A torcida elege culpado, mas, talvez o maior deles esteja ali na área técnica (ou na frente de um microfone botando a culpa em outra pessoa). O Bahia se defende mal em transição defensiva e pior ainda em organização. O Bahia toma gol de cabeça com a defesa postada para defender. Daqui a dez dias o sarrafo aumenta e, se antes eu estava preocupado, agora eu estou apavorado.

                A conclusão que se chega é a de que o técnico não será desligado do clube e provavelmente receberá uma devolutiva de todas as suas exigências. O grupo que gere o Bahia tem capital para isso. Mas, essa coletiva me reconectou com o passado mais triste do Bahia. O passado onde ninguém admitia nada e toda ação gerava turbulência. Deixo aqui registrado que acredito na remontada do Bahia nesse certame, assim como acredito no título regional que também está em disputa, afinal, temos um bom time, mas, espero que, pelo menos internamente, o nosso técnico tenha guardado suas armas e não tenha machucado tanto seu elenco com suas palavras. A pior coisa que nos pode acontecer nesse momento é o plantel absorver as críticas e perder a adesão ao Bahia. Repare: não é sobre o técnico, é sobre o Bahia. Espero que eles tenham resiliência e saibam ser felizes apesar de Rogério Ceni.

BBMP !

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