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Coluna

Carlos Patrocinio
Publicada em 28/06/2021 às 11h14

Misto de sensações

Hoje amanheci com um misto de sensações sobre o jogo de ontem, contra o Palmeiras. Esperançoso, pela capacidade de competir com um time daquela qualidade, fora de casa, pelo menos enquanto o time titular teve pernas, mas triste pelo resultado. Ia escrever apenas sobre isso, mas parte da imprensa conseguiu tornar esse sentimento de tristeza em raiva, por algumas perguntas feitas a Dado Cavalcanti em sua entrevista pós jogo.

Algumas me chamaram a atenção, como uma que perguntou se o Bahia deixou escapar um resultado num jogo fácil, outra se Dado preferia jogar bem e ganhar ou jogar mal e perder, além de uma outra que perguntou se Luis Otávio falhou no lance do terceiro gol. No mais, uma série de perguntas óbvias sobre o fato do Bahia não ter aproveitado as chances que criou.

É impressionante como a imprensa, que deveria ser composta de gente preparada para ver e interpretar o jogo, resumem a discussão pós-jogo a questões simplistas, como individualizar erros, buscar responsáveis e não tentar discutir a qualidade do jogo e os eventuais erros coletivos que conduziram à derrota, ou mesmo valorizar o fato do Bahia ter enfrentado de igual para o igual se não o melhor time, o mais homogêneo elenco do Brasil.

Fiquei incrédulo quando ouvi perguntarem “se o Bahia perdeu o jogo mais fácil dos últimos tempos”. Em qual mundo enfrentar o Palmeiras no estádio deles pode ser considerado “jogo mais fácil dos últimos tempos”? Como é possível chamar de fácil um jogo contra um time que pode fazer 04 alterações pra colocar em campo de uma vez só jogadores como Gabriel Menino, Patrick de Paula, Zé Rafael e Rafael Veiga? Não dá.

Enquanto a imprensa esportiva baiana fizer perguntas simplistas como estas, acho difícil trazer para o grande público discussões mais profundas sobre o que é uma partida de futebol. Posso parecer pedante dizendo isso, alguns dizem até que não respeito a opinião contrária ao ser agressivo com argumentos que considero simplistas, como a busca por responsáveis individuais por derrotas, mas é como vejo futebol.

No jogo de ontem, por exemplo, relativizo bastante o erro técnico de Luis Otávio no 3º gol palmeirense. Vi gente elegendo o grandalhão como “responsável pela derrota”, principalmente ao, de forma simplista, limitar aquele lance a um erro de interceptação. O próprio Dado explora isso na coletiva ao trazer a visão dele sobre a jogada que redundou no gol da vitória palmeirense. Na minha concepção, há uma série de fatores muito mais importantes naquele lance, um deles meio crônico nesse time do Bahia. Vou tentar explicar meu ponto de vista.

O Bahia de Dado vem jogando com apenas 1 volante de mais contenção (Patrick de Lucca), que, ainda assim, é muito mais um primeiro volante construtor do que propriamente um jogador de combate. Ainda assim, mesmo quando Patrick está em campo, não é incomum vendo o jovem volante tricolor dando bote e combate em linhas mais avançadas. Quando isso acontece, até pelas características dos outros meio campistas (Daniel e Thaciano), fica um vazio na entrada da área do Bahia. É um risco calculado que Dado vem assumindo ao escalar esse time com maior capacidade de passe. Às vezes funciona, às vezes não. Mesmo quando Jonas entra e joga ao lado de outros meio campistas que saem mais (ontem ele estava com Pablo e Daniel), o problema persiste, já que este volante tricolor tem como característica sair à caça em posições mais avançadas.

Pois, na minha visão, foi exatamente o que aconteceu ontem. Jonas sai à caça, à frente da linha dos outros dois meio campistas. Quando é batido, como Daniel está um pouco mais avançado, Juninho é obrigado a sair da linha defensiva pra buscar o portador da bola, quebrando a última linha. Luis Otávio, que está à direita, mais próximo de Deiverson, que busca Nino, por ser mais baixo, é obrigado a mudar de posição para cobrir seu companheiro de zaga. É muito clara a mudança de direção do corpo dele. Breno Lopes faz uma diagonal entre a linha de volantes e a última linha defensiva, que está toda quebrada. Luis Otávio, mesmo não sendo responsável por aquela zona, é obrigado a mudar de novo de direção e tentar cortar um passe que não aconteceria se a linha de meio campistas estivesse postada e não correndo pra trás. Aí vem o erro técnico.

Todas essas circunstâncias colocaram um zagueiro que não tem essa característica e facilidade de antecipar por baixo fora da situação que se sente confortável. Colocou um zagueiro de quase 2 metros exposto. Se ele fica, provavelmente Breno Lopes recebe livre e invade a área com um toque. Ao sair acabou furando. Houve um erro? Houve. Acho que esse foi o fato determinante para o gol? Na minha concepção, não. Pra mim, há uma questão muito mais importante, que cabe ao treinador tricolor analisar, que é como proteger a frente da zaga tricolor no futuro. Será que era o caso de tirar Patrick para colocar Jonas? Não seria melhor entrar com Jonas no lugar de Thaciano, fixando Patrick à frente da zaga e liberando Jonas pra caçar os portadores da bola? Olhando agora, como engenheiro de obra pronta, pra mim sim.

Futebol é um jogo que envolve risco e recompensa. O Bahia ontem assumiu um risco ao enfrentar o Palmeiras de igual para igual. Risco louvável, entendo. Criou inúmeras chances. Perdeu dois gols sem goleiro (Gilberto e Maicon Douglas), botou duas bolas na trave (Rossi e Daniel) e perdeu gol cara a cara com Jailson (Thaciano, em posição duvidosa). Ainda assim marcou dois gols. Infelizmente não foi possível vencer, naquilo que reputo como a melhor atuação da equipe na competição.

Para não dizer que só falei de flores, como já tinha até mencionado em colunas anteriores, acho que o “11 ideal” que Dado vem usando tem um problema, que fica meio evidente quando Thaciano não consegue fazer gols. Falta um jogador mais agudo na esquerda, como é Rossi na direita (por sinal, como vem jogando o Búfalo!). Além disso, cria-se uma vulnerabilidade defensiva ali, que no último jogo o Palmeiras enxergou e tentou explorar no segundo tempo. O próprio Dado diz isso. Por isso que acho que o Bahia precisaria de um jogador de beirada que atue por aquele setor e, de repente pudesse chegar pra ser titular. Acho Thaciano importante, mas não acho que pode ser titular absoluto, como vem sendo, até porque não há outras opções por enquanto. Em jogos que precisamos de mais doação defensiva, como foi ontem, isso inclusive atrapalha Rodriguinho, que tem que voltar mais. Se tivesse um jogador que subisse e descesse por aquele setor, o camisa 10 tricolor poderia ficar mais perto de Gilberto, onde rende mais.

Talvez, no elenco atual, fosse o caso de tentar testar mais Maicon Douglas e até Oscar Ruiz por ali em mais oportunidades. Outra opção, em alguns jogos, poderia ser a entrada de um Jonas, com Daniel funcionando como um armador aberto, que fecharia quando tivéssemos a bola e ocuparia o espaço quando tivéssemos defendendo, desta vez com o apoio defensivo de um volante mais pegador, que também ajudaria a liberar Rodriguinho.

De qualquer sorte, independente do time escalado, o que me traz alguma segurança é ver um trabalho sendo executado, um treinador com boas ideias e que mostra preparo até nas suas coletivas, sempre lúcidas, mesmo quando há perguntas como as que foram feitas na última entrevista. Além disso, se conseguir replicar essa partida em outros momentos ao longo do campeonato, com os devidos ajustes e atenção na bola parada defensiva, sempre estaremos mais próximos dos triunfos do que das derrotas. É lógico que, do ponto de vista do resultado, é melhor ganhar jogando mal do que perder jogando bem, como perguntou de forma simplista outro jornalista. Mas esse argumento é tão frágil que dá até preguiça de rebater, já que jogando mal um time sempre estará mais perto de perder do que de ganhar.

 @c_patrocinio

 
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