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Coluna

Publicada em 20/04/2022 às 13h10

O ''Messias'' tricolor

‘’Messias’’ é uma palavra de origem hebraica que pode significar ‘consagrado’, ‘ungido’, ‘salvador’, ‘libertador’, etc. No Judaísmo, o Messias é a figura humana que descende de Davi, que tem a capacidade de restaurar Israel e o reino de Davi. No Cristianismo, o Messias é o filho de Deus, enviado a terra para salvar a humanidade do sofrimento e da condenação eterna.  Este pequeno preâmbulo serve para mostrar que as civilizações sempre depositaram em uma figura a responsabilidade de resgatar um ideal de comunidade e de sucesso enquanto sociedade.

Na história do Bahia já apareceram alguns ‘Messias’. Neste texto, para construir meu raciocínio, utilizarei um exemplo ocorrido há oito anos. Em janeiro de 2014, empolgados com o início do modelo democrático instituído na reforma estatutária do Bahia e com a surpreendente manutenção do clube na Serie A, a diretoria do Bahia iniciou uma rodada de contratações visando uma virada de chave na história do clube e uma reinserção no panteão dos grandes. Uma levada de reforços que incluíam atletas com relativa importância como Pittoni, Lincoln, Biancucchi, Rhayner, Ueliton, além da afirmação de Anderson Talisca como titular no Bahia. Mas, existia uma expectativa em um nome que pudesse ser o grande destaque, o ponto de ruptura de mentalidade pequena para vencedora, o grande craque, o camisa 10, ‘’a cereja do bolo’’.  A cada derrota, a cada insucesso, a cada eliminação precoce, as críticas eram abafadas por novas pistas de quem seria este craque que desembarcaria no Aeroporto Dois de Julho, que vestiria o manto tricolor no arriar das malas, que seria envolvido em uma bandeira do clube colocada por Binha, que ganharia um boné da Bamor e daria a primeira entrevista com frases como: ‘’viemos resgatar a grandeza deste clube’’ ou ‘’agora vamos brigar para sermos campeões brasileiros’’.

Os meses iam passando, o Bahia estava numa gangorra entre ser eliminado na primeira fase de uma copa do nordeste ou de aplicar uma série de ‘lepo-lepos’ nos Bavices e as novidades iam surgindo a respeito da prometida cereja. A diretoria, por sua vez, alimentava os anseios da torcida e pedia trinta mil sócios para poder anunciar o grande ‘’Messias’’ tricolor. Por volta de maio daquele ano, o nome finalmente surge: Leandro ‘’El Pipi’’ Romagnoli, o grande ídolo do San Lorenzo que havia vencido há pouco tempo o campeonato argentino e se tornaria o campeão da copa libertadores da América. Imediatamente, surgiram às primeiras matérias relembrando Sanfilippo, lendário ídolo dos dois clubes, a imprensa do sudeste duvidava da capacidade do Bahia de trazer um jogador desse porte, a notícia repercutia internacionalmente e a ansiedade tomava conta da torcida. Nada mais fazia sentido. Dane-se que o Bahia não tinha centroavante, não tinha lateral esquerdo, que o goleiro falhava e já demonstrava vontade de sair, que o salário atrasava, que o Bahia penava no Brasileirão, que Talisca foi vendido a preço de cuscuz (porque nem a preço de banana chegou) sem o Bahia poder fazer nada. Tudo era abafado pela expectativa da chegada de Romagnoli. A cada revés, um detalhe do pré-contrato era revelado.

Ex-dirigente do Bahia conta detalhes da contratação de Romagnoli em 2014

Foto: Evandro Veiga

Agosto chegou. O contrato de Romagnoli se encerrou no San Lorenzo e ele teria que se apresentar ao Bahia. A esta altura, o jogador já não tinha mais certeza se queria jogar no Bahia, afinal, tinha acabado de levantar a libertadores e queria enfrentar o Real Madrid no mundial de clubes da FIFA. Mas, como contrato é contrato, ele veio, foi recepcionado com faixas, torcida organizada, baianas de acarajé, abraço com bandeira e tudo mais que o receptivo povo baiano pudesse oferecer para que o ‘Messias’ da torcida de ouro se sentisse em casa e pudesse conduzir o clube às glórias. Leandro Romagnoli, em um ato de humanidade em estado puro, cagou para a recepção que teve, pagou a multa, sapecou uma bicuda no Bahia e deixou Salvador sem sequer olhar pra trás. Para o Bahia, só restou o sorriso amarelo de quem, supostamente, saiu no lucro por ter recebido uma quantia interessante em dólares de um jogador que sequer entrou em campo. Esse clima, essa história, esse enredo, esse arco narrativo, te lembra de alguma coisa, caro leitor? No Bahia, os ciclos se repetem.

Voltamos para 2022. Nove a cada dez notícias do Bahia nos últimos meses tem como palavras-chave: Grupo City; acordo; próximos dias; conselho; SAF. Eliminado da copa do nordeste? – ‘’Nos próximos dias o Bahia deve receber a proposta do grupo City’’. Eliminado do campeonato baiano? – ‘’Daqui até o natal, o Bahia recebe a proposta do grupo City’’. O time é fraco e não passa nenhum confiança que vai retornar a Serie A? – ‘’O grupo City vai investir num-sei-quantos milhões no Bahia, o que equivale a 32% da fortuna de Elon Musk, pra contratar já no primeiro ano’’.

Sinceramente, já deu dessas especulações de meia pataca lançadas para gerar cortina de fumaça e maquiar o que vem sendo o atual Bahia. A realidade está aí, pública, notória e escancarada na nossa cara. Eduardo Freeland em entrevista ao podcast Segue o Baba admitiu que está contente com o elenco do Bahia. Guilherme Bellintani e Vitor Ferraz desapareceram (e sinceramente, é uma das poucas boas notícias deste ano, melhor eles trabalharem lá nas entoca mesmo). O Bahia entrou em campo pela estreia da Copa do Brasil sem centroavante, improvisando Vitor Jacaré como 9 para disputar com um cara com o dobro de sua altura, o time não consegue criar contra adversários fechados, não existe infiltração em entrelinhas, não existe troca de passes rápidas, os laterais (destaque para a lateral direita) são uma piada que ninguém ri. Falta quase tudo, mas eles já estão satisfeitos. Até gracinha nas redes sociais, já voltaram a fazer. Parafraseando Racionais, estamos vivendo ‘’entre o sonho ou a merda da sobrevivência’’.

Copa do Brasil: Bahia para em bloqueio do Azuriz e empata sem gols

Foto: Jhony Pinho/AGIF

Para não dizer que vesti o manto da amargura, o time do Bahia tem melhorado no quesito concentração e tem ganhado corpo como equipe. O time está mais pegador, mais focado, mais coeso, encaixado. Longe do ideal, mas, com ajuda da torcida, pode ser que dê resultado. Talvez a cortina de fumaça tenha surtido tanto efeito que a torcida e imprensa esqueceram o time e deu tranquilidade para trabalhar. Talvez tenha sido uma boa.  Mas, o que vem depois? E se o Grupo City for o novo ‘’El Pipi’’ e desistir do Bahia, como essa pressão vai retornar? Vão usar a desculpa de que a torcida se iludiu porque quis e a diretoria nunca disse nada oficialmente, que esses vazamentos todos de detalhes da negociação foram mentiras deslavadas?

Interessa-me muito mais o tema SAF do Bahia do que a suposta proposta da City Football Group. É preciso entender que uma ruptura de clube associativo para clube empresa tem que ser feita com muita cautela e de uma maneira que não crie brechas para o clube sair prejudicado juridicamente. A pressa que está sendo imposta para que não se perca esse possível investidor pode ser extremamente prejudicial. Não estamos vivendo uma situação pré-falimentar para acreditar que é a nossa última chance de tirar o pé da lama. É preciso entender também que não existe apenas esse investidor no mundo, para que, caso essa possível negociação venha a ‘flopar’, não se crie o cenário de terra arrasada, como se o Bahia fosse acabar. É uma situação onde o clube precisa agilizar os ritos para não deixara boiada passar e sobrar apenas rebarbas, mas, não dá para ser feito com tanta ansiedade.  E, principalmente, não dá para depositar todas as esperanças de sucesso do Bahia a chegada de um grupo. Não existe ‘Messias’ no futebol.  

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