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Coluna

Cássio Nascimento
Publicada em 09/10/2020 às 23h25

Sonho de uma noite de primavera em São Caetano do Alentejo

Em 1480 nem existia futebol. Em vez da tabela do Brasileirão, o index librorum prohibitorum, símbolo de uma época na qual quem vacilava não ia pro Z4, e sim pra fogueira mesmo. Naquele ano, nascia o italiano Gaetano de Thiene, sobre o qual falaremos em detalhes lá adiante. Nesse ínterim, o jovem português Vasco da Gama mal contava com seus onze anos de idade, provavelmente correndo atrás das cabras em uma vila litorânea perdida do Alentejo lusitano. Possivelmente, contemplava o mar e dizia “um dia eu conquistarei tudo isso daqui”. Mais ou menos naquela época, Bartolomeu Dias já tinha, literalmente, dobrado o Cabo das Tormentas, hoje da Boa Esperança, sepultando de vez a ideia de que a Terra plana da época terminava ali, numa grande aresta na qual o Nada se lhes descortinaria adiante.

Vasco cresceu, tornou-se navegador – um dos melhores da então superpotência portuguesa. Impôs acachapantes derrotas ao inimigo francês e iniciou, a mando do Infante D. Henrique, uma grande missão em busca de novas rotas marítimas visando o comércio de especiarias com a Índia, uma vez que Veneza dominava a conhecida rota do Mediterrâneo, o que aumentava os custos das transações. Finalmente, em 1498, Vasco conquistou o mundo, digo, as Índias.

Falando em Veneza, a 80 km da cidade natal Vicenza, o jovem Gaetano vivia sua vida, ora ouvindo o chamado de Jah Deus, ora estudando Direito. Em 1516, tornou-se padre, com uma grande carreira de dedicação aos pobres e necessitados. Sua devoção a Deus era tanta, que, no leito de morte, pediu para que lhe deitassem num madeiro, à semelhança de Jesus na cruz. Morreu em Nápoles, em 7 de agosto de 1547, data na qual é celebrado (coincidentemente, o mesmo dia de São Raudnei dos Arrependidos da Ladeira); sendo canonizado em 1671. É tido como “o Padroeiro dos gestores administrativos, assim como das pessoas que buscam trabalho e dos desempregados” (Wikipedia).

“Porra é essa?! Colé desse cara, que tá escrevendo História num site de futebol?”

Oremos:

400 anos depois da “descoberta” do caminho das Índias, no Rio de Janeiro, surgiu um clube de futebol, que na verdade não era de futebol a princípio, e sim de remo. A comunidade lusitana na ex-capital da República batizou a agremiação com o nome do herói Vasco da Gama. Sua indefectível camisa branca da faixa preta diagonal é orgulho para milhões de torcedores pelo Brasil afora.

Vários lugares no Brasil acabaram recebendo o nome artístico do nosso herói Gaetano, agora San Gaetano (por sinal um dos preferidos do Papa Chico); aportuguesado para São Caetano: de uma importante cidade industrial do ABC paulista, passando por um bairro itabunense e outro soteropolitano. No logradouro da capital baiana, inclusive, habita ou habitava um senhor de vastos cabelos e fartos bigodes, o qual incorporou o nome da localidade ao seu cognome e tornou-se símbolo de um torcer ao mesmo tempo insano, irracional, cômico e excessivamente ufanista, não necessariamente nesta ordem.

São Caetano não estava representado em Pituaçu na última quarta-feira, por motivos de força maior. Porém todos os torcedores do Bahia, incluindo os do aludido bairro, assistiram, finalmente, a um triunfo maiúsculo, contra um tradicional adversário, e freguês de caderno. O xará do amigo de Caetano, inclusive, fez gol, desenterrando de vez a inhaca. O estilo Mano de gerir o time finalmente fez efeito, e São Caetano, o santo, provavelmente inspirou o gestor administrativo Belintani a promover alterações no plantel, a contar com o novo treinador, mais pragmático, no lugar do prolixo e confuso Roger. A Escola Gaúcha de Treinadores Retranqueiros, em voga no Brasil desde os anos 1990, teve um belo upgrade nas hostes tricolores. Amém!

Seguimos na torcida pela fuga do rebaixamento, em virtude dos muitos pontos desnecessariamente perdidos, mas, quem sabe, São Caetano não faz milagre de novo, inclusive brindando o Bahia com uma diretoria que saiba tratar melhor as áreas-fim, mormente o futebol?

O velho português amanheceu de mau humor na quinta feira e foi abrir sua padaria. Logo em seguida, entra na panificadora um senhor cabeludo e bigodudo, envolto numa puída bandeira tricolor, e chegando ao balcão, pede um sonho ao patrício. Como era bem cedo, o sonho ainda não tinha acabado. Degustando o sonho, o tal senhor enrolado na bandeira caminha pelas ruas, olha pro mar, depois pro céu, como se estivesse a contemplar o mundo; e diz: “um dia conquistarei tudo isso aqui”.

Camões disse, quando Bartolomeu passou da Tapobrana: “bora Baêa minha p...!”

Afinal, o Bahia é melhor que o Barcelona, melhor que o Bayern de Munique e melhor que o Real Madrid.

Que assim seja. Pelo menos até a próxima rodada.

Saudações Tricolores!

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