Em 2010, ano do histórico retorno do Bahia para a primeira divisão do futebol nacional, o Esquadrão homenageou a seleção espanhola, atual campeã do mundo, com a camisa “Fúria Tricolor”, uma peça vermelha com detalhes em azul e amarelo, cores de forte identificação do país ibérico.
15 anos depois, já em um contexto completamente diferente, o Bahia viajou à Espanha para realização de sua pré-temporada na cidade de Girona, aproveitando a estrutura oferecida pelo clube local, que também faz parte do Grupo City.
Agora, em 2026, chegou a vez do caminho inverso ser feito. Hoje, quem cruza o Atlântico é um cidadão espanhol, com o objetivo de conhecer o Bahia e vivê-lo durante sua curta estadia em Salvador, onde acompanhou a grande final do Campeonato Baiano e pôde sentir na pele a verdadeira tensão de um clássico Ba-Vi.
O impacto recente do Bahia em sua vida foi tão significativo, que o personagem deste texto segue guardando a camisa que utilizou para assistir ao clássico na Fonte Nova e a retirou da mala para usá-la durante nossa entrevista.
Viajando pelo futebol
Rodrigo Soriano é um jovem nascido em Sevilha, cidade localizada no sul da Espanha, que fica a cerca de 6500 quilômetros de Salvador. Porém, a paixão de Rodrigo pelo futebol faz com que a distância seja transformada apenas em números.
Sua história com esse meio começou em 2023, quando participou de um intercâmbio no Rio de Janeiro e viu sua paixão pelo futebol crescer ainda mais após se ver inserido no contexto das torcidas brasileiras. Para ele, há um contraste muito grande na forma com que brasileiros e espanhóis acompanham o futebol.
De acordo com sua própria experiência, o futebol no Brasil é algo vivo e que faz parte do cotidiano das pessoas, enquanto na Espanha, o esporte é apenas uma forma de entretenimento entre muitas outras.
“Nos acostumamos a tratar o futebol como um ‘jeito de viver’, mas quando vamos deitar e o dia termina, o futebol também acaba. No Brasil, vejo que tem muito mais influência, está conectado a outras coisas. Por exemplo, se você souber alguma coisa sobre futebol, sempre vai ser ajudado, porque aqui não tem essa diferença, o futebol ‘pega’ em todos os lugares”, disse em entrevista exclusiva ao ecbahia.com.
Com isso em mente, criou o objetivo de mostrar aos seus conterrâneos a forma com que o futebol é vivido no Brasil, não somente indo aos jogos, mas também vivendo completamente a experiência de um torcedor comum e compartilhando a história de cada clube mostrado em seu canal no YouTube.
Com as amizades que fez no Brasil, Rodrigo pôde conhecer um universo de clubes muito mais vasto do que é apresentado para o europeu médio consumidor de futebol. “Um amigo flamenguista me disse que eu precisava conhecer as torcidas do Nordeste e, mais precisamente, a do Bahia. Eles falavam mais sobre a tradição do que qualquer outra coisa, que era algo muito bonito”. E, de fato, seu amigo estava certo. Com uma das maiores médias de público da história do Brasileirão, o Bahia e sua torcida se colocam no seleto grupo de entidades mais tradicionais do futebol brasileiro, com a capacidade de encantar qualquer estrangeiro que coloque os pés na Fonte Nova.
A descrição dada pelo amigo e o conteúdo encontrado ao fazer sua pesquisa sobre o Bahia despertou uma chama no coração de Rodrigo, que sentiu a necessidade de assistir a um jogo do Bahia. Coincidentemente, a partida mais próxima era a final do Baianão contra o Vitória. “Pensei que não teria um jeito melhor de mostrar ao mundo a importância de um clube tão grande com um jogo tão significativo”, foi a oportunidade perfeita para a construção de um roteiro épico.
Conhecendo o calor do Bahia
Com a agenda apertada e sem muito tempo para conhecer a cidade, Rodrigo conta que pegou um vôo de bate-volta somente para assistir ao clássico no meio da torcida do Bahia, chegando a ter que dormir no aeroporto para viabilizar a viagem.
Ainda no aeroporto, pôde perceber o impacto que a torcida do Bahia causa em Salvador. “Conheci um torcedor no aeroporto que me acompanhou durante todo o caminho do metrô até a Fonte Nova. A partir desse momento, eu percebi que o Bahia era capaz de mobilizar a cidade”.
Por ter que dormir no aeroporto de uma cidade desconhecida, era de se esperar que Rodrigo não tinha lugar para guardar seus pertences, ainda mais por não ter conseguido deixar seus pertences no próprio aeroporto. Sem querer levar documentos e equipamentos de trabalho para o estádio, nosso personagem se viu em um dilema: tentar entrar com tudo no estádio ou ter que confiar em um estranho.
Já nas redondezas da Fonte Nova, mas sem saber se poderia entrar com sua mochila, tomou sua decisão. Abordou um estranho que estava na porta de casa e perguntou se poderia guardar sua mochila no apartamento do homem desconhecido.
“Não dá para confiar em todo mundo, então fui perguntando nas farmácias e estabelecimentos, mas, no final, acabei deixando minhas coisas com um homem que parecia ser uma boa pessoa”. É inegável a sorte que Rodrigo teve ao tomar uma decisão tão arriscada, principalmente porque o desconhecido se identificou como policial e, acima de tudo, torcedor do Bahia.
Já em direção ao estádio, Rodrigo pôde sentir a pressão existente em um clássico Ba-Vi, mesmo com torcida única, na Fonte Nova. “É a primeira partida da série que fico um pouco nervoso, porque há muita tensão no ambiente e não sei como será dentro do estádio”, disse momentos antes de entrar em um dos portões de acesso da Arena.
Ao entrar e conhecer a estrutura, Rodrigo se encantou com a Fonte Nova e a torcida do Bahia. Ficou localizado no setor norte, ao lado da Torcida Bamor, e por mais que não soubesse todas as músicas de cor, fez questão de apoiar o Esquadrão como se realmente fosse torcedor do clube.
“Faço um mergulho dentro da torcida e os vídeos são feitos para que você sinta que está no estádio. Quando eu ficava sem ir aos jogos do Sevilla, sentia saudade, então, quando fiquei na torcida do Bahia fiz questão de aproveitar”. Porém, Rodrigo conta que sentiu verdadeiramente o espírito da torcida durante a virada do placar para cima do Vitória, quando as arquibancadas explodiram de felicidade em um berro uníssono de loucura e alegria.
“As pessoas ficaram malucas, todo mundo pulando e puxando uns aos outros. Tiveram momentos em que não filmei, que fiquei calado para sentir o ambiente, só olhando para os lados e notando as reações dos torcedores. Foi aí que percebi que essa torcida é massa, cara”.
Após torcer, cantar e se emocionar como se fosse um dos nossos, Rodrigo permaneceu na torcida até o momento em que o Bahia levantou a taça estadual pela 52ª vez. Entregue à catarse tricolor, o espanhol saiu da Fonte Nova praticamente sem voz e com a certeza de que jamais esqueceria o dia em que assistiu a um jogo do Bahia.
Anjos no caminho
Outra coisa que Rodrigo jamais esquecerá, é, sem dúvida alguma, o carinho que recebeu em sua estadia, tanto em Salvador, quanto em qualquer outro lugar do Brasil. Cita como principal exemplo o homem que guardou sua mochila, o qual descreveu como um anjo que cruzou seu caminho.
“Tiveram, também, muitas pessoas que me deram presentes quando viram que eu estava torcendo para o Bahia. Por ser um gringo no meio de toda torcida, foram bem legais comigo e comemoramos juntos”, contou, ao dizer que se viu apaixonado pela recepção calorosa da torcida.
Com uma experiência que classificou como perfeita com a torcida do Bahia, Rodrigo Soriano agora busca novas culturas e torcidas para imergir e mostrar para seu público. No Brasil, já esteve nas arquibancadas com as torcidas dos principais times do país e busca expandir ainda mais o escopo de estádios visitados, planejando gravações por outros países.
Confira na íntegra o vídeo gravado por Rodrigo Soriano, onde ele mostra a experiência completa de sua viagem para conhecer a torcida do Bahia.
Essa reportagem faz parte de uma série onde contamos as histórias de pessoas que não nasceram no Brasil, mas que possuem algum tipo de ligação com o Esporte Clube Bahia. Já entrevistamos pessoas da Argentina, Inglaterra, Holanda e Japão, você pode conferir cada uma das histórias clicando no nome do país correspondente.
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