é goleada tricolor na internet
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Publicada em 23 de abril de 2026 às 20:19 por Cássio Nascimento

Cássio Nascimento

A Morte, a Morte e a Morte de R. Ceni






O célebre personagem de Jorge Amado, possivelmente nascido Quinzim, crescido Sr. Joaquim e morrido Quincas, representa o arquétipo de uma respeitável figura da sociedade a qual, “depois de véio”, começou a enfiar o pé na jaca e virou um verdadeiro Bafo de Bode, para aludirmos a outro personagem amadiano retratado numa antiga novela da Globe.

Após o invulgar plot twist, trôpego pelas bodegas da velha Bahia, maltrapilho e vivendo em uma baiúca; Quincas adoeceu e morreu logo em seguida. O corpo, vestido com a fantasia da vida pregressa à esbórnia, foi velado cheio das mangas e paletós, em discreta cerimônia fúnebre. Durante a vigília mortuária que transcorreu a noite, seus antigos amigos de bebedeira apareceram a fim de prestar-lhe a tal última homenagem. Após “beberem o morto”, puseram cachaça em sua boca e eis que este “ressuscitou”, iniciando-se assim uma aventura, como-se-não-houvesse-amanhã, pelos cenários da Soterópolis cinquentista até que o ex-defunto volta ao seu estado original, ao cair de um barco em meio uma tempestade. Parafraseando outro icônico baiano, foi doce morrer no mar.

Morreu o janota, reviveu-se o dito cujo em sua natureza morta. Morreu, de novo, na praia: do mar, lar da biota.

E mais uma vez a torcida do Bahia fez papel de idiota.

Nasceu o Bahia dRC aos nove de setembro do ano da desgraça de 2023. Depois do miraculoso 3×0 em cima do Galo do Incrível Tio Hulk, com o rebaixamento do Prantos da Vila Suspiro, a torcida começou a ver, de fato, a marca do Grupo Citi. Sonhos que vamos ter, como todo dia nasce, novo em cada amanhecer, em pleno sol de Dias d’ Ávila.

Em 2024, o pioneiro voltou: o oitavo lugar, impulsionado por Botafogo e Flamengo, garantiu o retorno do Esquadrão à Libertadores, passando pela Pré. Chegou a liderar o grupo da fase grupal, digladiando-se com Nacionais pelo sonho internacional. Eis que em plena Fonte, um jogo que parecia sob controle, contra o Nacional uruguaio, foi a primeira morte tricolor. O velório foi no Beira Rio, ironicamente contra o mesmo time que nos tirou da edição de 1989.

Em 2025, por sua vez, tinha chances de se classificar sem Pré: perdeu jogos que não poderia ter perdido; e depois, nem da Pré passou. Nessas três para quatro temporadas, dois campeonatos baianos, um Nordeste e lampejos de exibições de gala entremeados por derrotas inexplicáveis por todos os lados. Nas Copas do Brasil disputadas neste interregno, arregou quando o funil se estreitou, ou seja: quando enfrentou seus rivais do “G12”.

Agora, em 2026, só nos resta o Brasileirão, e com ressalvas. O bicampeonato estadual, decerto já enfadonho, apenas corrobora o doce sabor de jogar o lixo no lixo. Um bom começo, 3 triunfos fora de casa, convencendo, mas quando chega a hora de atropelar e colar nos líderes, a decepção: assim foi com o Remo do Sr. Condé, com incríveis sete gols sofridos de uma equipe que só perdeu até agora, sendo 3 ontem, em casa, pela Copa do Brasil, – competição na qual a classificação, se vier, será miraculosa. Não exatamente pela força do adversário, mas sim pelo seu treinador, alguém que já colocou o Sr. Rogério no bolso em outras ocasiões, mais humilde e menos badalado.

Ceni morre, Ceni ressuscita. Eliminações vexatórias, seguidas de exibições fantásticas de um elenco alegre e que joga pra frente. No entanto, não chuta a gol de longe, não consegue emplacar um mísero centroavante que seja decisivo. As substituições, sempre as mesmas. O esquema tático sobrecarrega o excelente Acevedo, o maior desarmador do campeonato, e demanda um goleiro milagreiro, o que parece que, por enquanto, está bem encomendado.

O 4-3-3 do Sr. Rogério não varia: não muda conforme o adversário, há poucas opções de marcação do meio para trás, o negócio é ir pra frente e pelas laterais (e tomando contra-ataques mortais). Condé já sabia da kriptonita do super-homem tricolor, a sua péssima saída de bola, e foi mais uma vez para cima, colhendo bons frutos. Tanto foi que o derrotado treinador, ontem, reconheceu publicamente suas falhas, em vez de terceirizar a culpa ao elenco que comanda, como o fez no 4×1 de Belém.

A primeira morte de Ceni, em 2025, foi amenizada pelo fato de “o Bahia precisa pegar mais cancha de Libertadores”, entremeada por uma ou outra acusação de perseguição da arbitragem. Ali, o Ceni em trajes de gala ainda resistia: afinal, “isso acontece”. A segunda morte, anunciada no ano passado, deu-se ontem, depois do triste resultado contra os paraenses. Rogério já não consegue mais sustentar o discurso de que “o time tem que ter mais maturidade”, uma vez que é composto de macacos-velhos como Ribeiro, Willian José e Everaldo. Já não consegue mais pôr a culpa na VARbitragem, porque, pelo menos ontem, não vi do que se reclamar neste sentido.

O Ceni anunciado como um revolucionário do futebol, um garboso Guardiola tropical, foi despido. Deram-lhe a cachaça da soberba e da teimosia, o mesmo continuou fazendo m* e acabou por morrer numa barca: a remo e sob água.

Resta agora a terceira morte de Rogério, a qual desejamos que seja por meio da santa rescisão de contrato. Como estamos falando de Manchester, terra dos nossos donatários SAFados, minha memória me causa calafrios, temendo por um possível Sir Rogeriex Fergusseni, um monstruoso híbrido quimérico que tende a durar um quarto de século no comando da equipe profissional, até ficar velho e decrépito. Pior: pode ser vitalício, saindo de lá apenas após a morte física! Sei lá, vai ver que é tradição na velha capital britânica das mariposas defumadas a Monarquia Futebolística? Até lá, o Bahia acabará? Não, mas continuará sendo, nas palavras do finado Varela, uma eterna fábrica de ilusões.

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