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Publicada em 23 de abril de 2026 às 09:52 por Victor Moreno

Victor Moreno

A Sinergia






Salvador, 23 de Abril de 2026

No ano de 2020, diante daquele cenário aterrador que atravessamos neste planeta, necessitei realizar reparos domésticos em minha residência e, para isso, contratei um profissional local para a empreitada. No dia do orçamento, o abençoado apareceu no endereço com sinais de embriaguez e, como tudo que é feito sob a ótica ébria, a solicitação de materiais e negociação do preço do serviço não obedeceu a uma lógica sustentável e nem compatível ao mercado. Como também sou um prestador de serviços e acredito piamente que a massa operária deve se unir, não questionei a autoridade do profissional e busquei organizar-me financeiramente para realizar as tarefas.

Comprei os insumos, as ferramentas, separei a pequena fortuna do trabalhador e marquei a data de início do projeto. Chegou o tão aguardado dia, no horário marcado previamente, exatamente às 07h, ele estava lá acompanhado por um ajudante. Grata surpresa. Permito sua entrada na edificação e saio tranquilo para dar expediente. Às 08:30h chega a notícia: – o pedreiro foi embora e deixou apenas o ajudante no local. Recebo a notificação com estranheza, mas dou um voto e confiança, afinal, nós do proletariado temos os nossos vícios e ritmos de trabalho. Imaginei que teria ido buscar alguma ferramenta ou alimentar-se. Ledo engano, ele não voltou mais. No segundo dia, foi repetido o mesmo comportamento. No terceiro, quando ensaiou fazer o mesmo, telefonei e indaguei: – o que está acontecendo? Ele respondeu: – Saí para resolver um problema, mas fulano está lá realizando a atividade. Retruquei imediatamente: – Mas, eu acertei a empreitada contigo com a promessa de conclusão em três dias, estamos no terceiro dia, se eu soubesse que seria realizada por outro profissional eu teria convencionado com ele. Então ele deu o xeque-mate: – Vê se pode! Estou te fazendo o favor de resolver seu problema e você questionando minha metodologia.

Naquele momento, as vistas turvaram-se, as mãos começaram a tremer, a raiva atravessou cada célula do corpo tal qual uma corrente elétrica e desliguei o telefone para não desferir ofensas pesadas. Arrisco-me a dizer que se estivéssemos frente a frente, poderíamos evoluir para um nível de desinteligência marcado por agressões verbais e físicas. Eu tenho uma limitação cognitiva que me impede o desenvolvimento do pedido de ajuda, de favores, portanto, consigo aturar preços caros em produtos e serviços, aturo inclusive má qualidade, mas eu não consigo internalizar a ideia de receber um favor. Sobretudo quando a dinâmica do processo é a de serviço e não de uma ajuda pautada na amizade. Sabe quem também me passa a impressão que está me fazendo um favor? As pessoas que vestem e representam o Esporte Clube Bahia.

Não me entendam mal, o Bahia é minha vida, eu acompanhei esse clube em divisões inferiores com a máxima lealdade e fidelidade. Já vi muitos jogadores de baixíssima qualidade vestir essa camisa, muitos técnicos de formação duvidosa, muitos diretores com interesses escusos, mas eu nunca me senti tão desconectado das pessoas que representam o Bahia como tenho me sentido ultimamente. Desde 2023 quando o Bahia foi incorporado ao seleto hall de clubes do City Football Group (CFG), temos vivenciado no mínimo dois vexames por ano. Elencando-os:

2023: Disputa para não retornar a Série B, goleado por seis a zero para o maior rival interestadual, eliminação da fase de grupos da copa do nordeste, eliminação nos penaltys na Copa do Brasil com o pior jogador do plantel batendo um dos penaltys decisivos.  

2024: Eliminado sem dar um chute a gol na Copa do Brasil contra o Flamengo, perda do Campeonato Baiano cedendo duas viradas ao maior rival, segundo turno patético após criar expectativas no torcedor, eliminação na semifinal da Copa do Nordeste para o CRB.

2025: Eliminado sendo completamente dominado na Copa do Brasil perante o Fluminense, perda da vaga direta na Copa Libertadores após passar mais de 70% do campeonato na zona de classificação para o mesmo adversário.

2026: Eliminado da pré-libertadores pelo O’Higgins e eliminado pelo Remo na Copa do Brasil.

Isso tudo sob a promessa de um projeto coeso, sustentável e pautado em princípios de boa governança. Sabe o que cada vexame desses tem em comum? A postura das pessoas. A sensação é que eles acreditam que estão fazendo um favor para o Bahia e para a torcida do Bahia e, portanto, não devem demandar grandes esforços para cumprir, afinal, ninguém doa sua totalidade de recursos físicos, mentais e emocionais para realizar favores para outrem. Os princípios básicos para fazer um favor são a gentileza e a abnegação. São pouquíssimas as pessoas no mundo que fazem isso em nome da caridade e da boa vontade e geralmente estes poucos são santificados e/ou beatificados, tamanha a raridade de pessoas assim. E definitivamente não é o caso do elenco, comissão técnica, diretoria e companhia limitada que ‘’representam’’ o Esporte Clube Bahia atualmente.

Escrevo isso no dia seguinte a um dos maiores vexames que já presenciei enquanto torcedor do clube, comparável a levar sete gols do Ferroviário numa Série C. Enfrentamos um adversário que em mais de trinta anos só venceu dois times em Série A (ou em competições comparáveis a Série A) e, adivinha quem foi o maravilhoso que conseguiu a façanha de perder duas vezes, levando um total de sete gols desse adversário? O Bahia. Em ambos, a equipe desistiu aos quinze minutos do segundo tempo. Inclusive, o abandono é a marca registrada dessas pessoas que estão vestindo a camisa do Bahia (hoje eu me recuso a chamá-los de jogadores). Por exemplo, os clássicos BaVices em 2024 no Barradisney, onde o comandante dessa embarcação furada afirmou que só tinha elenco para setenta e cinco minutos e nos últimos quinze, o barco afundou ao ceder duas viradas para aquele time horrível. Ou quando eles desistiram de jogar futebol contra o Atlético Nacional na Colômbia e, precisando apenas de um empate para chegar as oitavas de final, falhou miseravelmente. Na Colômbia eles também protagonizaram outro vexame, dessa vez contra o Deportivo Cali (nesse vexame, eles inovaram e desistiram antes mesmo de começar o jogo).

A rendição é a palavra que define essas pessoas. E é aí que entra o título desse artigo: – a Sinergia. Cresci escutando que o Bahia não merecia a torcida que tem, mas agora finalmente alcançamos este equilíbrio. Quando o time é abstêmio, a torcida renuncia. Após iniciar o ano de 2026 vivenciando uma série de aumento de preços (acima de qualquer tabela padronizada pelo país como taxa selic, IGPM, IPCA, etc), como por exemplo, produtos oficiais, mensalidade do plano de sócios, ingressos, consequentemente o check-in e o gran finale da sacanagem com o torcedor: – o preço do estacionamento no estádio. Eles defendem-se dizendo que não são os gestores desse espaço e quem determina os preços é a empresa que detém o contrato e, assim como em campo, esquivam-se da responsabilidade, tornam-se incapazes de tentar uma resolução em conjunto e ignoram o sentimento do torcedor (ou melhor, o cliente). Ser tratado como cliente o tempo inteiro fomenta um comportamento de […] clientela. E em toda empresa que fracassa em algo, tem que haver choque de gestão, senão o cliente busca a concorrência. Como o Bahia é sagrado, o torcedor não irá mudar de time, mas vai tornar-se cada vez mais exigente e amargo. Ontem atingimos o ápice do perfil comportamental de tomador de serviço ao gritar ‘Olé’ para a troca de passes do time adversário, na tentativa de devolver a humilhação que estávamos passando. E foi nesse momento que, finalmente, plantel e torcida entraram em sinergia: – time de glúteos flácidos, torcida de falo murcho. O grupo de atletas desistiu em campo, a torcida desistiu na arquibancada, a comissão técnica desistiu na área técnica, a diretoria desistiu no camarote e Ferran Soriano, o suposto mangangão do CFG desistiu direto da Europa. Chega a ser poético, filosófico.

Falando em filosofia e poesia, como diria um pensador contemporâneo chamado Hélio Bentes: – ”Eu e Eu buscando um ponto de equilíbrio”. O eu Bahia e o eu Torcida, finalmente alcançamos o ponto de equilíbrio: – desistimos ao mesmo tempo. Bora Bahêa Minha Porra (para o abismo).

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